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Em Busca de uma Meta Mais Elevada

18 de Fevereiro de 2018

“Mesmo que um dia eu conseguisse escalar o Everest, tal experiência não seria tão diferente da que tive no topo do Aconcágua.  Todas as ditas conquistas neste mundo, por maiores que possam parecer, são efêmeras por natureza e não podem satisfazer o espírito. Precisava encontrar algo que realmente viesse a saciar a sede da minha alma”.

Em minha juventude, dos 14 aos 21 anos de idade, minha paixão era escalar montanhas. Comecei no Rio de Janeiro, escalando o Pão de Açúcar e outros morros, e, após alguns anos, fui buscando montanhas cada vez mais altas e mais difíceis de escalar. Assim, viajei por vários países da América Latina, buscando me realizar nas belas e imponentes montanhas da Cordilheira dos Andes. Minha última escalada foi a do Monte Aconcágua, que, com seus quase 7000 metros de altitude, é a montanha mais alta das Américas e uma das maiores do mundo. Devido às muitas tempestades de neve que enfrentamos, a escalada foi difícil e arriscada. Passamos quase um mês acampados no campo base, esperando por uma oportunidade de ascender ao cume. Do grupo de cinco, três ficaram muito doentes devido à altitude. Finalmente, o tempo abriu durante dois dias, e, junto de um grande amigo meu chamado Othon, consegui chegar ao topo do Aconcágua.

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Guru-sevananda Dasa, então Gustavo Moura, no topo do Aconcágua.

Durante a meia hora que passei sentado no cume, refletindo sobre o valor da vida e sobre a natureza da minha busca, perguntei a mim mesmo: “E agora, qual será a próxima meta?”.

O Primeiro Lampejo Espiritual

Após contemplar tal pergunta por alguns minutos, pensei: “Minha busca, na verdade, não é por montanhas. Mesmo que eu escalasse todas as montanhas do mundo, minha sede permaneceria insaciada. Tampouco estou buscando dinheiro, fama, poder ou conforto material. O que é que estou buscando, então? Eu não sei. Embora eu sinta esse vazio no coração, não consigo encontrar nada que possa preenchê-lo…”.

Foi então que, de repente, tive um interessante insight: “Preciso ir à Índia!”, pensei comigo mesmo. Por que a Índia? Eu mesmo não sabia a razão, mas, dentro de mim, ouvi esse chamado. E o mais interessante é que eu senti claramente que essa visita à Índia não seria para escalar os Himalayas, mas para buscar uma meta mais elevada até do que o monte Everest e, aliás, mais elevada que qualquer outra meta material. Meu raciocínio foi o seguinte: “Mesmo que um dia eu conseguisse escalar o Everest, tal experiência não seria tão diferente da que estou tendo aqui e agora, sentado no topo do Aconcágua. Apesar da sensação de uma nova conquista e de superação pessoal, ainda assim permaneceria insatisfeito. Todas as ditas conquistas neste mundo, por maiores que possam parecer, são efêmeras por natureza e não podem satisfazer o espírito. Portanto, minha viagem à Índia deve ser em busca de algo além das posses e vaidades mundanas. Preciso encontrar algo que realmente venha a saciar a sede da minha alma”.

Preparativos para a Viagem

Um ano mais tarde, após me graduar como oficial do exército pela Academia Militar das Agulhas Negras, comecei meus preparativos para a tão esperada viagem. Minha preparação era mais psicológica do que prática, uma vez que estaria indo sozinho e sem roteiro definido. Era uma verdadeira busca pelo desconhecido, sem ideia clara do que iria encontrar.

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Na formatura da Academia Militar das Agulhas Negras.

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Com um amigo sobre um tanque M-60 quando ainda comandante de pelotão de tanques em Rio Negro, PR.

Providencialmente, nas semanas que antecederam minha viagem, ganhei dois livros de presente: minha tia Sheila me deu uma biografia condensada de Srila Prabhupada, o fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON), e um amigo me presenteou com um livro escrito por Srila Prabhupada entitulado Além do Nascimento e da Morte. Esse mesmo amigo, então, me levou para conhecer Nova Gokula, a principal comunidade Hare Krishna da América do Sul, e lá comprei um Bhagavad-Gita Como Ele É. No final da visita, uma das devotas residentes de Nova Gokula, chamada Eka Murti Devi Dasi, me ensinou a cantar o maha-mantra Hare Krishna e me presenteou com uma japa-mala (um tipo de rosário) para que eu pudesse recitar o mantra durante minha viagem.

Coincidências ou Guiado pela Mão Divina?

O voo de Guarulhos para Nova Delhi fazia escala em Londres, onde passei três dias antes de seguir viagem. Aproveitei para conhecer um pouco dessa histórica cidade e também para procurar um bom guia de viagem sobre a Índia. Após tê-lo comprado, notei que o autor era um discípulo de Srila Prabhupada. “Mais uma vez, esse guru indiano está cruzando o meu caminho”, pensei comigo mesmo. Uma vez no voo para a Índia, tive como passageiro vizinho um senhor indiano que ficou um tanto intrigado com meu interesse em visitar o seu país. Ao perceber a natureza espiritual da minha busca, ele aconselhou: “Não perca tempo em Delhi, que é uma cidade muito grande e caótica, como tantas outra no mundo. Pegue um  táxi do aeroporto e vá diretamente para Vrindavana, que é o local onde Krishna nasceu. Lá você vai encontrar o que está buscando”.

Olhando o mapa e lendo um pouco sobre Vrindavana em meu guia de viagem, achei que seria um bom local para iniciar minha busca e resolvi seguir seu conselho. Sendo um viajante inexperiente, havia esquecido de perguntar onde me hospedar, mas o taxista que me levava não teve dúvida: “Vou te deixar no Angreji Mandir (o templo dos gringos). Assim, por arranjo da providência, fui deixado no portão do Krishna-Balarama Mandir, o templo estabelecido por Srila Prabhupada em Vrindavana.

Logo ao cruzar o portão, conheci um monge italiano chamado Sada Shiva, que morava em Vrindavana há muitos anos e cujo serviço no templo era tocar um instrumento chamado harmônio e cantar o mantra Hare Krishna várias horas por dia. “Seu único serviço é cantar?”, perguntei curioso. “Sim, esse cantar é o melhor serviço que se pode prestar a Deus nesta era. Nós chamamos esse processo de kirtana e temos um grupo que reveza para manter os santos nomes ressoando na sala do templo 24 horas por dia”, explicou meu novo amigo. Esse devoto me ajudou de muitas maneiras práticas, como para conseguir acomodação e alimentação no templo, e também respondeu muitas de minhas perguntas filosóficas e curiosidades culturais. Além disso, ele me apresentou ao líder do seu grupo, chamado Aindra Prabhu, pedindo que eu pudesse participar no Kirtana 24 Horas. Daí ele me ensinou a tocar karatalas (címbalos de mão) para que eu pudesse acompanhá-lo quando era o seu turno de cantar. Eu não era um devoto, era um viajante aventureiro, vestido em calça jeans e carregando minha bagagem em uma mochila de alpinista. Por trás dessa carapaça, contudo, era uma pessoa ávida por respostas que justificassem minha própria existência.

Agora que o destino tinha me levado a esse templo em Vrindavana, eu estava curioso por entender o estilo de vida e a filosofia dos devotos de Krishna, mas, ao mesmo tempo, eu jamais poderia me imaginar vivendo como um deles. O contraste com meu estilo de vida e com minha identificação como um militar era muito grande. Além disso, suas práticas diárias, como a de acordar às 3 horas da madrugada, tomar banho frio, meditar por mais de duas horas, seguir diversos princípios reguladores etc., me pareciam demasiadamente austeras.

Sada Shiva Prabhu me guiou pelos principais templos de Vrindavana e por vários outros locais sagrados de Vraja, levando-me para fazer o parikrama (circum-ambulação) da colina de Govardhana, com direito inclusive a banho no mais sagrado dos lagos, o Radha-Kunda. Dessa forma, passei uns dez dias em Vraja, intensamente absorto em cantar os santos nomes, peregrinar e tomar muita maha-prasada. Embora eu não tivesse plena consciência da importância do local onde estava, depois dessa visita minha vida jamais seria a mesma.

Perder para Reencontrar

Quando decidi seguir viagem para conhecer outras partes da Índia e visitar templos de outras tradições religiosas, meu amigo Sada Shiva ficou muitíssimo desapontado. “Para que visitar o Taj Mahal? É apenas um túmulo. E quanto a outros grupos religiosos, certamente você poderia visitar muitíssimos templos na Índia, mas Vrindavana é a terra de Krishna, o local mais importante para todos os devotos. Fique aqui morando conosco. Você pode simplesmente passar a vida cantando Hare Krishna e assim desenvolver amor puro por Deus”.

Com argumentos desse tipo, Sada Shiva Prabhu tentou me convencer a largar tudo e ficar em Vrindavana. Eu respondi dizendo que não era um devoto de Krishna e que queria conhecer também os budistas, Sai Baba (um famoso místico que vivia no sul da Índia naquela época) e rodar pela Índia buscando respostas para as minhas perguntas. Eu estava muito agradecido pela sua hospitalidade e tinha aprendido muitas coisas, mas precisava continuar minha viagem. Afinal, tinha apenas um mês de férias e, depois, teria que me apresentar no Regimento de Cavalaria em Rio Negro, no Paraná, para iniciar minha carreira como oficial do exército.

Ao me despedir de meu amigo, que era tão italiano quanto era monge Hare Krishna, Sada Shiva Prabhu disse: “Adesso puoi andare via, poi piangerai di avere lasciato Vrindavana” (Agora você pode ir embora, mas um dia irá chorar com saudades de Vrindavana). Suas palavras proféticas ecoariam mais tarde em minha mente, quando pudesse avaliar a boa fortuna que tive de peregrinar pela terra de Krishna.

Saudades de Vrindavana e Pada Yatra

Depois de Vrindavana, visitei Haridwar e Rishikesha, nos Himalayas, junto com um grupo de devotos brasileiros que, mais uma vez, Krishna providencialmente colocou em meu caminho. De lá, fomos a Varanasi e, na última semana da viagem, fui conhecer o ashram do famoso Sai Baba no sul da Índia.

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Cruzando o Ganges, na cidade de Varanasi, em sua primeira visita à Índia em 1997.

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Nadando no Ganges, em Rishikesha.

Todos os locais foram muito interessantes, mas nenhum tocou meu coração tanto quanto Vrindavana. Aquela vivência no Krishna-Balarama Mandir havia gerado em mim uma genuína apreciação por Srila Prabhupada e seus dedicados seguidores, e havia plantado uma semente de vida espiritual em meu coração. Essa semente continuou sendo regada quando eu, de volta ao Brasil, continuei a cantar o mantra Hare Krishna e a ler avidamente o Bhagavad-Gita Como Ele É.

Por dois anos, continuei trabalhando como oficial do exército, mas, dentro do meu coração, estava sempre pensando em Krishna, em Vrindavana e em Srila Prabhupada, cuja biografia havia me impressionado profundamente.

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Ainda militar depois do retorno da Índia. Recebe os cumprimentos do comandante do regimento pela vitória de sua equipe no Pentatlo Militar. O comandante ficou surpreso que, apesar de agora vegetariano, Guru-sevananda, então Tenente Gustavo Moura, tivesse tido a melhor performance entre todos os participantes nas competições.

Meu desejo era dedicar-me em tempo integral à sua missão de propagar a consciência de Krishna, mas como poderia fazê-lo? Morava em uma pequena cidade do sul do Paraná, onde não havia sequer um devoto de Krishna com quem eu pudesse me associar, e isso gerava em mim um sentimento de desamparo espiritual. Todos os dias, eu acordava às quatro da madrugada e meditava no mantra Hare Krishna por duas horas antes de ir para o quartel. Quando voltava para casa, lia o Bhagavad-gita e rezava mais até a hora de dormir.

Meu cantar do maha-mantra naquele tempo era como um choro pedindo a Krishna que me aceitasse, que me ocupasse a Seu serviço e que me colocasse na associação de Seus devotos. Finalmente, Krishna resolveu atender minhas preces através de um devoto que fora enviado diretamente da Índia por seu mestre espiritual para fazer uma peregrinação em carro de boi da Argentina até o Brasil. Esse tipo de peregrinação é chamado Pada Yatra e é algo relativamente comum na Índia. No ocidente, entretanto, era algo extremamente exótico ver um monge viajando de carro de boi com um templo em cima. A maneira como nos encontramos e a nossa interessante jornada do sul do Brasil até Pindamonhangaba foi uma grande aventura transcendental que me deu a convicção para deixar minha profissão e dedicar-me integralmente à consciência de Krishna. Mas isso é outra história…

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O que são mantras

3 de novembro de 2017

A palavra sânscrita mantra é formada pela junção da raiz man- “pensar” com o sufixo -tra, que indica instrumentalidade. Ou seja, um mantra é um instrumento utilizado para direcionar o pensamento, daí sua importância na prática de meditação. Essa mesma raiz man- também dá origem à palavra manas, mente, enquanto que outro significado de -tra é proteger ou libertar. Assim, mantra também pode ser entendido como um som capaz de proteger ou libertar a mente.[1] Alguém poderia se perguntar então, “mas libertar de quê?”.

A vibração sonora de um mantra visa produzir certos efeitos na consciência de quem o ouve, bem como no ambiente onde é entoado. Embora existam inúmeros mantras, cada um com seu propósito específico, pode-se dizer que em geral todos eles visam livrar a nossa mente de pensamentos desnecessários e de sentimentos negativos como a ansiedade, a lamentação, a ira, a inveja, etc. Em última análise, a meditação com mantras ajuda a remover as várias camadas de concepções errôneas que temos sobre nós mesmos, promovendo assim o autoconhecimento.

Mantras não são criações humanas, mas fórmulas sonoras recebidas internamente por grandes sábios absortos em meditação. Embora os mantras nem sempre apresentem um significado literal, eles sempre comunicam um sentido espiritual muitíssimo profundo. Aliás, devemos entender que mesmo mantras que podem ser traduzidos em ideias inteligíveis possuem ainda um significado mais sutil que vai além do nosso intelecto para tocar nosso coração.

Esse efeito transformador dos mantras deve-se ao seu refinado padrão vibracional. Embora sutil, o efeito dos mantras é profundo e real, atuando de dentro para fora em nossa personalidade. Como reconhecem estudiosos modernos, mantras são arranjos melódicos e rítmicos com precisão matemática e com efeitos observáveis na matéria. Aliás, inúmeros experimentos científicos confirmam a eficácia dessa ciência milenar que utiliza o poder do som e particularmente da voz humana como instrumento de cura física, psicológica e espiritual.[2]

Um dos nossos objetivos primários nesse projeto Caminhos do Dharma é apresentar essa ciência dos mantras, bem como oferecer orientação teórica e prática para quem deseja entoá-los. Esperamos que esse breve artigo sirva de incentivo para que cada vez mais pessoas pratiquem essa ciência espiritual e assim passem a vibrar em uma frequência cada vez mais elevada na medida em que suas consciências se harmonizam com a energia purificadora dos mantras.

Oṁ Tat Sat

[1] Uma definição etimológica de mantra é mananāt trayate iti mantraḥ – aquilo que liberta pela meditação é chamado mantra.

[2] Uma referência interessante sobre esse assunto é a obra do Dr. James D’Angelo (2005) The Healing Power of the Human Voice: Mantras, Chants, and Seed Sounds for Health and Harmony.

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O Absoluto e suas representações

26 de outubro de 2017

“Ó Vyāsadeva, tua visão é perfeita, tua reputação é imaculada, estás situado em veracidade e firme em tuas observâncias espirituais. Assim podes, em transe, pensar nas atividades transcendentais do Senhor para a libertação das pessoas em geral.” (Bhāgavata Purāa 1.5.13)

Existe alguma verdade absoluta ou realidade última subjacente à criação cósmica? Se existe, pode ela ser compreendida? E supondo que alguém tenha tido acesso a essa realidade, ainda que tenha sido apenas um vislumbre, de que maneiras poderia essa pessoa comunicar sua experiência às demais? Vamos primeiramente discutir maneiras de transmitir experiências ordinárias e depois ver como isso se aplica a experiências transcendentes.

 

Imagine que haja, no quintal da sua casa, um pé de jambo. É uma fruta relativamente conhecida no Brasil, mas em outras partes do mundo a maioria das pessoas não faz ideia do que seja. Daí imagine que você está viajando em outro país e alguém te pergunta se você conhece jambo, se já viu uma fruta dessas, se já pegou uma e já comeu. Como você poderia comunicar sua experiência para essa pessoa?

  1. Você poderia digitar “jambo” no Google Images e mostrar uma foto dessa fruta para a pessoa.
  2. Você poderia buscar uma definição mais detalhada na Wikipédia, incluindo nome científico da espécie, vitaminas que a fruta contém, etc.
  3. Se você é um poeta, poderia escrever alguns versos descrevendo mais profundamente essa fruta e sua experiência com ela.
  4. Se você é um escritor, poderia se inspirar a escrever um romance sobre jambos e tudo o que se passa em torno dos jambeiros…
  5. Ou você poderia decidir não relatar a sua experiência, mas incentivar a pessoa a viajar até o jambeiro e provar a fruta diretamente. Você pode até desenhar um mapa de como chegar até a sua casa no Brasil, ou pode dar as coordenadas para a pessoa buscar no Google maps.

Pois então, transpondo essa analogia para as experiências transcendentes dos místicos e santos das várias tradições, fica fácil perceber que cada um deles tentou comunicar sua visão utilizando uma ou mais das estratégias delineadas acima. Em todo caso, será sempre uma representação da realidade ou uma diretriz sobre como perceber essa realidade. Aliás, podemos nos perguntar: será que existe algo neste mundo de objetos e experiências ordinárias que não seja representação?

Na verdade, tanto filósofos ocidentais quanto pensadores da índia antiga chegaram à conclusão de que nada em nossa percepção é a realidade em si, mas uma representação dela em nossa mente. Toda a experiência que temos neste mundo acontece através dos sentidos – tudo o que vemos, ouvimos, sentimos, degustamos, etc., é sempre uma experiência mediada pelos sentidos, mente e intelecto que funcionam como nossos instrumentos para captar e interpretar a realidade externa.

Além do mais, todos os objetos desses sentidos são manifestações efêmeras, que não possuem existência real do ponto de vista do absoluto [cf BhG 2.16]. Em suma, juntando a imperfeição dos sentidos com a natureza efêmera de seus objetos, nossas experiências ficam muito longe de poderem ser consideradas reais. Ainda assim, elas são úteis para fins práticos, assim como ícones na tela de um computador que nos permitem acessar conteúdos valiosos clicando neles.

A realidade propriamente dita, entretanto, estaria em outra dimensão: seria o mundo das ideias de Platão, os arquétipos de Jung, o Brahman do pensamento Vedānta, o mundo espiritual das diversas tradições teístas. Se é possível ter acesso direto a essa Realidade, esse acesso tem de ser necessariamente uma percepção espiritual direta, sem a mediação dos sentidos. Fora isso, tudo é representação ou indicação indireta mediada pelos sentidos e intelecto.

Alguns videntes da verdade (santos, místicos) descreveram sua visão em palavras, que depois se tornaram dogmas. Outros colocaram seu insight na forma de poesias ou contos, que depois foram taxados como mitologia. Alguns, como o Buda, tentaram evitar a criação de dogmas e mitos e por isso escolheram ensinar apenas o processo para que possamos ter nossa experiência em primeira mão, se calando quanto ao conteúdo de suas visões. Ainda assim, dogmas e mitos abundam no budismo [enquanto isso, pessoas frustradas pela proliferação de dogmas, mitos e ritos desconectados de seu sentido original, resolveram tomar refúgio exclusivo na razão humana e criaram seu próprio “sistema de dogmas” na forma de uma dita ciência que estuda apenas objetos e negligencia a consciência por trás de todo fenômeno].

Aqui encontra-se o grande diferencial do Bhāgavata Purāṇa – um dos mais importantes textos da índia antiga – em relação a tantos outros textos de revelação espiritual. Percebendo as limitações das várias abordagens descritas acima, o redator habilmente combina todas elas para oferecer um vislumbre inicial o mais completo possível da realidade última, ainda que indireto. Essa apresentação literária e poética é também embasada em raciocínio lógico sofisticado e suplementada por um processo de autorealização (bhakti-yoga) que permite a qualquer pessoa eventualmente ter acesso direto à realidade suprema pela sua experiência pessoal.

Essa abordagem foi recomendada pelo sábio Nārada a Vyāsadeva, o compilador dos Vedas, no Bhāgavata Purāṇa [Canto 1, cap. 5]. Por isso, e também pela qualidade do insight místico de Vyāsa [descrito no BhP 1.7.4], essa obra é considerada o fruto maduro de toda a literatura védica.

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Yoga na Bhagavad-Gita

17 de setembro de 2017

Os dois textos mais citados como referência ao que é chamado “yoga clássico” são o Yoga-sūtra de Patāñjali e a Bhagavad-Gītā.[1] É interessante notar que ambos os textos mencionam apenas brevemente aquilo que normalmente se entende por yoga hoje em dia: as posturas físicas ou āsanas. Na verdade, essa yoga com ênfase no corpo é algo bastante recente, uma vez que a verdadeira meta do yoga sempre foi promover uma integração da personalidade bem como uma conexão com a divindade. Sendo assim, os textos clássicos valorizam muito mais a postura interna – ou seja, as atitudes e os movimentos da consciência – do que as posturas externas e os movimentos do corpo.

Isso não significa que a dimensão corpórea seja irrelevante na jornada espiritual – pelo contrário, é um grande mérito das tradições indianas terem habilitado a corporeidade como um valioso instrumento de autoconhecimento e de auto aprimoramento. Aliás, considero extremamente positivo se uma pessoa consegue deixar de perceber seu corpo como um “símbolo de pecado” e passa a valorizá-lo como uma ferramenta divina a ser empregada para a elevação da sua consciência. O que não deve acontecer, contudo, é desvencilhar essas práticas corpóreas de seu contexto maior, perdendo assim de vista a sabedoria vasta e profunda do yoga.

No intuito de promover essa compreensão mais ampla, apresentamos a seguir uma visão geral de como o yoga pode ser entendido à luz da Bhagavad-Gītā.

Significado do termo yoga

O termo yoga vem da raiz sânscrita yuj à qual são atribuídos três sentidos principais:

  1. yuj [a] saṁyamane – controlar, atar, apaziguar (os sentidos)
  2. yuj [a] samādhau – absorção, concentração (da mente)
  3. yuj [ir] yoge – unir, juntar, conectar, atrelar, etc.

Em síntese, yoga pode ser entendido como um processo que visa controlar os sentidos para assim concentrar a mente e atingir um estado de conexão interior, especialmente entre a alma infinitesimal (jīvātmā) e a alma suprema (paramātmā).

Além desses três sentidos primários (controlar, concentrar e conectar), o termo yoga foi utilizado com grande versatilidade dentro das diversas tradições da Índia ao longo da história. Na Bhagavad-Gītā, onde seu significado mais comum é disciplina ou prática espiritual, a palavra yoga também é empregada no sentido de poder místico [BhG 11.8], no sentido de estado mental de equanimidade [BhG 2.48] e renúncia [BhG 6.2], bem como significando um estado de comunhão com o divino [BhG 6.47] e de desconexão (vi-yoga) das causas de sofrimento material [BhG 6.23].

Ainda que seja importante estar ciente dessa variação semântica do termo, nosso foco principal neste breve artigo será entender o yoga como um processo espiritual que permite diversas abordagens.

Abordagens do yoga

Uma famosa passagem do Ṛg Veda diz ekaṁ sad viprā bahudhā vadanti – “a verdade é una, os sábios a descrevem de muitas maneiras”. Assim com a mesma verdade pode ser contemplada por diversos ângulos, ela pode também ser abordada de várias maneiras e compreendida em diferentes níveis. Para dar um exemplo simples, pode-se chegar ao cume de uma grande montanha por diferentes lados, estabelecendo campos de apoio em patamares cada vez mais elevados. O processo de subir a montanha chama-se escalada, mas cada escalador é livre para abordar a montanha pela face que preferir e gradualmente ascender rumo ao cume a partir do local onde está situado.

Do mesmo modo, o processo de se conectar com a verdade suprema chama-se yoga e cada yogī pode abordar essa verdade de um modo particular, partindo do estágio onde se encontra e buscando elevar sua consciência cada vez mais. Assim, a Gītā descreve diferentes abordagens possíveis dentro desse sistema único que é o yoga.[2] As quatro abordagens principais são as seguintes:

  • Karma-yoga: é a conexão feita através da ação. Ninguém pode deixar de agir neste mundo, mas pode-se agir sem apego aos resultados. Quando a pessoa age por questão de dever, desempenhando suas funções da melhor maneira e livre de motivações egoístas, ela está agindo em karma-yoga. Esse tipo de ação não gera reações cármicas e, portanto, não prende a pessoa a este mundo. A Gītā [5.10] diz que quem executa seu dever sem apego e oferece o resultado ao supremo (brahman) não é afetado por reação pecaminosa assim como a pétala do lótus jamais é maculada pela lama.
  • Jñāna-yoga: é a conexão feita através do cultivo de conhecimento sobre o eu (ātmā). Na Gītā, usam-se os termos jñāna (conhecimento) e sāṅkhya (estudo analítico) de forma intercambiável. Ou seja, jñāna-yoga ou sāṅkhya-yoga indicam a busca pela verdade através da discriminação entre matéria e espírito. O processo implica não só o cultivo de conhecimento, mas também uma estrita renúncia ao contato com a matéria. Karma-yoga é geralmente entendido, portanto, como uma etapa preliminar ao processo de jñāna, uma vez que promove o desapego gradual do mundo. Uma vez estando com o coração suficientemente purificado, o yogī poderia então retirar-se para um local solitário e cultivar conhecimento transcendental levando uma vida bem simples e austera.
  • Dhyāna-Yoga: É a conexão feita através da meditação. Embora o exercício filosófico (jñāna) permita à pessoa diferenciar espírito de matéria e daí se perceber como uma entidade espiritual eterna, é fato que o absoluto não pode jamais ser abarcado pela razão. Assim, chega um ponto em que o yogī precisa ir além do seu intelecto para poder contemplar diretamente a verdade transcendente. Essa abordagem, que está descrita principalmente no capítulo 6 da Gītā, é a que mais se aproxima do sistema óctuplo de yoga proposto pelo sábio Patāñjali em seu Yoga-sūtra.
  • Bhakti-yoga: É a conexão feita por meio do serviço amoroso a Deus. Após descrever a progressão através de karma-yoga, jñāna-yoga e dhyāna-yoga nos seis capítulos iniciais, a Gītā [6.49] declara que o yogī mais bem-sucedido é aquele que com fé sempre reverencia a Deus e que assim está intimamente conectado a Ele pelo coração. O texto também é enfático ao dizer duas vezes [BhG 11.54; 18.55] que apenas através de Bhakti é possível conhecer perfeitamente a verdade última. Portanto, embora o trabalho desinteressado, os exercícios corpóreos, o cultivo de conhecimento, as técnicas respiratórias e a meditação sejam todos elementos integrais do Yoga, sua meta final é criar um vínculo amoroso entre o yogī e o yogeśvara (o Senhor do yoga).

Voltando àquele exemplo da escalada mencionado acima, pode-se comparar karma-yoga ao “campo-base”, no sopé da montanha. Dali pode-se prosseguir até o patamar seguinte, jñāna-yoga, que já seria um primeiro “campo-avançado” do conhecimento. Pode-se, ainda, prosseguir para o estágio seguinte de dhyāna-yoga, o segundo “campo-avançado” da meditação. O topo da montanha é bhakti-yoga, a conexão amorosa com Deus. Contudo, entende-se que não é obrigatória a passagem por todos esses “campos”, mas pode-se partir de qualquer um deles em direção ao cume.

Isso é possível porque bhakti é essencialmente uma atitude interna. Assim, atividades (karma) dedicadas a Deus tornam-se bhakti-yoga. Cultivo de conhecimento (jñāna) que visa entender a Deus é um aspecto de bhakti-yoga. Meditação (dhyāna) focada em Deus é uma prática de bhakti-yoga. Ou seja, quando a pessoa está internamente conectada ao supremo por um sentimento amoroso que se expressa em uma atitude de serviço, qualquer coisa que ela faça será uma forma de bhakti-yoga. Independentemente da posição onde esteja, na medida em que uma pessoa desenvolve essa consciência divina ela está se aproximando do topo da “montanha do yoga”.

 

[1] Que a Gītā é essencialmente um tratado de yoga fica evidente pela ocorrência do termo no texto. A palavra yoga aparece em 15 dos seus 18 capítulos, 78 vezes no total. Levando-se em conta variantes como yogī (praticante de yoga) e yukta (conectado), são mais de 150 ocorrências em um texto de 700 versos.

[2] Essa compreensão do yoga na Bhagavad-Gītā como sendo um sistema integrado está pautada nos ensinamentos de vários mestres tradicionais reconhecidos como Bhaktivedanta Swami Prabhupada e Sri Aurobindo. O primeiro utilizou a expressão “escada do yoga” (yoga ladder) e o segundo cunhou o nome “yoga integral” (pūrṇa-yoga) para explicar os diversos estágios e abordagens possíveis dentro desse caminho único que é o yoga. cf a obra de Prabhupada (2013, p. 292) O Bhagavad-Gītā como Ele É (cap. 6, verso 3, significado) e a obra de Sri Aurobindo (1997, p. 38) Essays on the Gītā.