O que é Dharma

Dharma é um conceito central nas diversas tradições espirituais da Índia, incluindo o budismo, o jainismo, o sikhismo e sobretudo as incontáveis vertentes daquilo que chamamos de hinduísmo. Todas essas podem ser chamadas “Tradições do Dharma”, ainda que cada uma tenha desenvolvido sua maneira específica de entender e vivenciar esse conceito. Apesar de suas origens históricas e das contribuições inestimáveis que todas essas tradições deram para a compreensão e perpetuação do dharma, o conceito é universal pela sua própria definição e, portanto, transcende a Índia para permear todas as tradições espirituais e religiosas do mundo.

Aliás, independentemente de qualquer instituição ou corrente de pensamento, esse conceito de dharma permeia tudo e todos, dando significado para a existência de cada ser, seja ele vivo ou inerte. Por exemplo, é dito que o dharma do fogo é iluminar e aquecer, que o da água é fluir e saciar a sede, e assim por diante. A compreensão do nosso dharma serve de base para o autoconhecimento e autoaprimoramento. Desse modo, cada um deve perguntar a si mesmo “qual é o meu dharma?”.  Essa resposta pode ser encontrada através do estudo, da introspecção e da orientação de mestres espirituais.

O termo dharma surge a partir da raiz sânscrita dhṛ (que traz a ideia de sustentar, manter, firmar) e possui amplo espectro semântico. Embora seja frequentemente traduzido como “lei”, “dever”, “conduta prescrita”, “virtude”, “preceitos éticos” e até mesmo “religião”, o termo também significa “natureza”, “condição peculiar” ou “qualidade essencial”. Dharma pode ser entendido, portanto, como a lei eterna que mantém o universo, como a conduta virtuosa que preserva a ordem cósmica e como o dever que harmoniza a pessoa com sua verdadeira natureza.

Assim, quando se diz que alguém está cumprindo seu dharma, entende-se que essa pessoa esteja não apenas seguindo leis, normas e deveres impostos externamente, mas sobretudo agindo de acordo com sua natureza intrínseca, em consonância com sua qualidade essencial. Falando em jargão técnico, agir em conformidade com o dharma é mais um fenômeno ontológico do que moral – é a entidade viva atuando conforme sua posição constitucional. Isso leva ao desabrochar pleno do ser em sua verdadeira identidade. Em suma, viver o dharma significa conhecer a si mesmo e agir de acordo com esse conhecimento.

Se à luz de textos como a Bhagavad-Gītā entendemos o ser humano como entidade espiritual eterna que se encontra temporariamente situada em um corpo material, os ensinamentos sobre o dharma naturalmente precisam contemplar essas duas situações – imanente e transcendente – do ser. Deste modo, os caminhos do dharma abrangem duas esferas distintas e complementares de sva-dharma, ou deveres prescritos para cada indivíduo: uma preliminar, que considera os condicionamentos psicofísicos do indivíduo enquanto este está identificado com sua corporeidade; e outra avançada, que delineia a função derradeira do ser espiritual além de qualquer limitação imposta pelo aparato grosseiro e sutil que o envolve.

A primeira esfera de sva-dharma prevê tarefas socioculturais distintas para cada pessoa – por exemplo, os inúmeros deveres familiares e profissionais, que surgem a partir de uma situação psicofísica particular e que variam com o tempo. A segunda esfera lida com os modos de atuação da entidade viva situada em sua natureza espiritual eterna. O propósito último de todo esses deveres prescritos é permitir que cada pessoa descubra e vivencie o seu dharma – que pode ser entendido como sua missão e propósito neste mundo, bem como, em última análise, sua natureza eterna e essencial.

Pode-se destacar, assim, um “dharma supremo” em meio a tantos dharmas circunstanciais. A esse respeito, o Yājñavalkya Smṛti 1.8 diz que dentre diversos deveres como executar rituais religiosos, praticar autocontrole, promover a não-violência, dar caridade e estudar as escrituras, o dharma supremo é perceber o eu (ātman) através do yoga.[1] Seguindo a mesma linha de raciocínio e indo mais além, o Bhāgavata Purāṇa 1.2.6 define o dharma supremo como sendo aquilo que conduz a bhakti – uma participação voluntária e amorosa no plano divino, dedicando nosso serviço ao Senhor transcendente – especificamente quando essa bhakti é ininterrupta e se manifesta livre de interesses ulteriores.[2] Essas duas definições são muito importantes pois servem para nortear qualquer discussão sobre o que é ou deixa de ser dharma em cada situação específica.

Os textos védicos expressam uma constante preocupação com a preservação do dharma – a ordem do universo, bem como as práticas que ajudam a manter essa ordem. Implícita nessa ênfase está o reconhecimento de que, sem um esforço consciente, o mundo tende naturalmente à desordem. Cabe a cada pessoa descobrir o seu dharma neste mundo e além dele, agindo de maneira tal que possa contribuir efetivamente para a manutenção da ordem cósmica e ao mesmo tempo alcançar satisfação permanente em um estado de verdadeira plenitude.

 

Om Tat Sat

 

Guru-sevānanda dāsa

São José dos Campos, 16 de setembro de 2017 (Indirā Ekādaśī)

 

 

[1] ijyācāra-damāhiṃsā- dāna-svādhyāya-karmaṇām ayaṃ tu paramo dharmo yad yogenātmadarśanam

[2] sa vai puṁsāṁ paro dharmo yato bhaktir adhokṣaje ahaituky apratihatā yayātmā suprasīdati