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Bhagavata Purana

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O Absoluto e suas representações

26 de julho de 2018

“Ó Vyāsadeva, tua visão é perfeita, tua reputação é imaculada, estás situado em veracidade e firme em tuas observâncias espirituais. Assim podes, em transe, pensar nas atividades transcendentais do Senhor para a libertação das pessoas em geral.” (Bhāgavata Purāa 1.5.13)

Existe alguma verdade absoluta ou realidade última subjacente à criação cósmica? Se existe, pode ela ser compreendida? E supondo que alguém tenha tido acesso a essa realidade, ainda que tenha sido apenas um vislumbre, de que maneiras poderia essa pessoa comunicar sua experiência às demais? Vamos primeiramente discutir maneiras de transmitir experiências ordinárias e depois ver como isso se aplica a experiências transcendentes.

 

Imagine que haja, no quintal da sua casa, um pé de jambo. É uma fruta relativamente conhecida no Brasil, mas em outras partes do mundo a maioria das pessoas não faz ideia do que seja. Daí imagine que você está viajando em outro país e alguém te pergunta se você conhece jambo, se já viu uma fruta dessas, se já pegou uma e já comeu. Como você poderia comunicar sua experiência para essa pessoa?

  1. Você poderia digitar “jambo” no Google Images e mostrar uma foto dessa fruta para a pessoa.
  2. Você poderia buscar uma definição mais detalhada na Wikipédia, incluindo nome científico da espécie, vitaminas que a fruta contém, etc.
  3. Se você é um poeta, poderia escrever alguns versos descrevendo mais profundamente essa fruta e sua experiência com ela.
  4. Se você é um escritor, poderia se inspirar a escrever um romance sobre jambos e tudo o que se passa em torno dos jambeiros…
  5. Ou você poderia decidir não relatar a sua experiência, mas incentivar a pessoa a viajar até o jambeiro e provar a fruta diretamente. Você pode até desenhar um mapa de como chegar até a sua casa no Brasil, ou pode dar as coordenadas para a pessoa buscar no Google maps.

Pois então, transpondo essa analogia para as experiências transcendentes dos místicos e santos das várias tradições, fica fácil perceber que cada um deles tentou comunicar sua visão utilizando uma ou mais das estratégias delineadas acima. Em todo caso, será sempre uma representação da realidade ou uma diretriz sobre como perceber essa realidade. Aliás, podemos nos perguntar: será que existe algo neste mundo de objetos e experiências ordinárias que não seja representação?

Na verdade, tanto filósofos ocidentais quanto pensadores da índia antiga chegaram à conclusão de que nada em nossa percepção é a realidade em si, mas uma representação dela em nossa mente. Toda a experiência que temos neste mundo acontece através dos sentidos – tudo o que vemos, ouvimos, sentimos, degustamos, etc., é sempre uma experiência mediada pelos sentidos, mente e intelecto que funcionam como nossos instrumentos para captar e interpretar a realidade externa.

Além do mais, todos os objetos desses sentidos são manifestações efêmeras, que não possuem existência real do ponto de vista do absoluto [cf BhG 2.16]. Em suma, juntando a imperfeição dos sentidos com a natureza efêmera de seus objetos, nossas experiências ficam muito longe de poderem ser consideradas reais. Ainda assim, elas são úteis para fins práticos, assim como ícones na tela de um computador que nos permitem acessar conteúdos valiosos clicando neles.

A realidade propriamente dita, entretanto, estaria em outra dimensão: seria o mundo das ideias de Platão, os arquétipos de Jung, o Brahman do pensamento Vedānta, o mundo espiritual das diversas tradições teístas. Se é possível ter acesso direto a essa Realidade, esse acesso tem de ser necessariamente uma percepção espiritual direta, sem a mediação dos sentidos. Fora isso, tudo é representação ou indicação indireta mediada pelos sentidos e intelecto.

Alguns videntes da verdade (santos, místicos) descreveram sua visão em palavras, que depois se tornaram dogmas. Outros colocaram seu insight na forma de poesias ou contos, que depois foram taxados como mitologia. Alguns, como o Buda, tentaram evitar a criação de dogmas e mitos e por isso escolheram ensinar apenas o processo para que possamos ter nossa experiência em primeira mão, se calando quanto ao conteúdo de suas visões. Ainda assim, dogmas e mitos abundam no budismo [enquanto isso, pessoas frustradas pela proliferação de dogmas, mitos e ritos desconectados de seu sentido original, resolveram tomar refúgio exclusivo na razão humana e criaram seu próprio “sistema de dogmas” na forma de uma dita ciência que estuda apenas objetos e negligencia a consciência por trás de todo fenômeno].

Aqui encontra-se o grande diferencial do Bhāgavata Purāṇa – um dos mais importantes textos da índia antiga – em relação a tantos outros textos de revelação espiritual. Percebendo as limitações das várias abordagens descritas acima, o redator habilmente combina todas elas para oferecer um vislumbre inicial o mais completo possível da realidade última, ainda que indireto. Essa apresentação literária e poética é também embasada em raciocínio lógico sofisticado e suplementada por um processo de autorealização (bhakti-yoga) que permite a qualquer pessoa eventualmente ter acesso direto à realidade suprema pela sua experiência pessoal.

Essa abordagem foi recomendada pelo sábio Nārada a Vyāsadeva, o compilador dos Vedas, no Bhāgavata Purāṇa [Canto 1, cap. 5]. Por isso, e também pela qualidade do insight místico de Vyāsa [descrito no BhP 1.7.4], essa obra é considerada o fruto maduro de toda a literatura védica.

Mantras

Meditação no Absoluto (Mantras de abertura da Isopanisad e do Bhagavata Purana)

17 de setembro de 2017

Mantra de abertura da Īśopaniṣad:
oṁ
pūrṇam adaḥ pūrṇam idaṁ
pūrṇāt pūrṇam udacyate
pūrṇasya pūrṇam ādāya
pūrṇam evāvaśiṣyate

Tradução: O Absoluto é perfeito e completo. Desse completo original surgem outras unidades também completas em si mesmas; e mesmo retirando-se tantas unidades completas do todo-completo, o Absoluto ainda assim permanece perfeito e completo.

Mantra de abertura do Bhagavata Purana:

janmādy asya yato ’nvayād itarataś cārtheṣv abhijñaḥ svarāṭ
tene brahma hṛdā ya ādi-kavaye muhyanti yat sūrayaḥ
tejo-vāri-mṛdāṁ yathā vinimayo yatra tri-sargo ’mṛṣā
dhāmnā svena sadā nirasta-kuhakaṁ satyaṁ paraṁ dhīmahi

Meditemos [naquele que é] a Verdade última. Que é a causa tanto material quanto eficiente da criação, [manutenção e aniquilação] deste [universo], permeando-o e existindo à parte dele simultaneamente. Que conhece tudo completamente. Que brilha por seu próprio esplendor e é independente. Por quem os Vedas foram revelados no coração do sábio original [i.e. Brahmā, o demiurgo do universo]. Que confunde [até mesmo] os sábios. Fundamentada em cuja realidade a criação tríplice resultante das transmutações de fogo, água e terra não é falsa. Por cuja influência toda a falsidade é dissipada. (BhP 1.1.1)