Browsing Tag

bhakti

Pérolas de sabedoria

“Atear fogo ao céu e apagar as chamas do inferno!”

18 de agosto de 2018

A sábia Rabi ‘a al-Basri, da tradição sufi, costumava dizer que iria atear fogo ao céu e apagar as chamas do inferno para que as pessoas parassem de servir a Deus por medo ou interesse. Em outras palavras, devemos cumprir o Dharma pelo Dharma, não para ganhar alguma outra recompensa ou para escapar de algum castigo.

De fato, a propensão a amar e servir está sempre presente na alma, é nossa natureza intrínseca, nosso Dharma eterno.  Portanto, servir a Deus e ao próximo é mais uma questão ontológica do que uma escolha moral. Ou seja, não o fazemos para evitar ferir um preceito ético, mas simplesmente porque é natural e faz bem para a alma.

Decerto existem condições que obstruem nossa propensão amorosa, como o egoísmo, a cobiça, a luxúria, etc. Mas uma vez que essas condições doentias da alma são tratadas, o amor flui naturalmente e se expressa em atitude de serviço desinteressado que busca apenas “fazer o bem, sem olhar a quem”.

Outro santo que orou de maneira semelhante foi o Rei Kulashekhara, do sul da índia:

nāhaṁ vande tava caraṇayor dvandvam advandva-hetoḥ
kumbhīpākaṁ gurum api hare nārakaṁ nāpanetum
ramyā-rāmā-mṛdu-tanu-latā nandane nāpi rantuṁ
bhāve bhāve hṛdaya-bhavane bhāvayeyaṁ bhavantam

Ó Senhor, não  é para me livrar das dualidades da existência material ou para escapar do terrível sofrimento do inferno que eu adoro Seus pés-de-lótus. Tampouco almejo desfrutar desfrutar de prazeres celestiais no paraíso. Apenas oro para que vida após vida eu possa sempre meditar em você no templo do meu coração. [Mukunda-Mala-Stotram 4]

Artigos

O Absoluto e suas representações

26 de julho de 2018

“Ó Vyāsadeva, tua visão é perfeita, tua reputação é imaculada, estás situado em veracidade e firme em tuas observâncias espirituais. Assim podes, em transe, pensar nas atividades transcendentais do Senhor para a libertação das pessoas em geral.” (Bhāgavata Purāa 1.5.13)

Existe alguma verdade absoluta ou realidade última subjacente à criação cósmica? Se existe, pode ela ser compreendida? E supondo que alguém tenha tido acesso a essa realidade, ainda que tenha sido apenas um vislumbre, de que maneiras poderia essa pessoa comunicar sua experiência às demais? Vamos primeiramente discutir maneiras de transmitir experiências ordinárias e depois ver como isso se aplica a experiências transcendentes.

 

Imagine que haja, no quintal da sua casa, um pé de jambo. É uma fruta relativamente conhecida no Brasil, mas em outras partes do mundo a maioria das pessoas não faz ideia do que seja. Daí imagine que você está viajando em outro país e alguém te pergunta se você conhece jambo, se já viu uma fruta dessas, se já pegou uma e já comeu. Como você poderia comunicar sua experiência para essa pessoa?

  1. Você poderia digitar “jambo” no Google Images e mostrar uma foto dessa fruta para a pessoa.
  2. Você poderia buscar uma definição mais detalhada na Wikipédia, incluindo nome científico da espécie, vitaminas que a fruta contém, etc.
  3. Se você é um poeta, poderia escrever alguns versos descrevendo mais profundamente essa fruta e sua experiência com ela.
  4. Se você é um escritor, poderia se inspirar a escrever um romance sobre jambos e tudo o que se passa em torno dos jambeiros…
  5. Ou você poderia decidir não relatar a sua experiência, mas incentivar a pessoa a viajar até o jambeiro e provar a fruta diretamente. Você pode até desenhar um mapa de como chegar até a sua casa no Brasil, ou pode dar as coordenadas para a pessoa buscar no Google maps.

Pois então, transpondo essa analogia para as experiências transcendentes dos místicos e santos das várias tradições, fica fácil perceber que cada um deles tentou comunicar sua visão utilizando uma ou mais das estratégias delineadas acima. Em todo caso, será sempre uma representação da realidade ou uma diretriz sobre como perceber essa realidade. Aliás, podemos nos perguntar: será que existe algo neste mundo de objetos e experiências ordinárias que não seja representação?

Na verdade, tanto filósofos ocidentais quanto pensadores da índia antiga chegaram à conclusão de que nada em nossa percepção é a realidade em si, mas uma representação dela em nossa mente. Toda a experiência que temos neste mundo acontece através dos sentidos – tudo o que vemos, ouvimos, sentimos, degustamos, etc., é sempre uma experiência mediada pelos sentidos, mente e intelecto que funcionam como nossos instrumentos para captar e interpretar a realidade externa.

Além do mais, todos os objetos desses sentidos são manifestações efêmeras, que não possuem existência real do ponto de vista do absoluto [cf BhG 2.16]. Em suma, juntando a imperfeição dos sentidos com a natureza efêmera de seus objetos, nossas experiências ficam muito longe de poderem ser consideradas reais. Ainda assim, elas são úteis para fins práticos, assim como ícones na tela de um computador que nos permitem acessar conteúdos valiosos clicando neles.

A realidade propriamente dita, entretanto, estaria em outra dimensão: seria o mundo das ideias de Platão, os arquétipos de Jung, o Brahman do pensamento Vedānta, o mundo espiritual das diversas tradições teístas. Se é possível ter acesso direto a essa Realidade, esse acesso tem de ser necessariamente uma percepção espiritual direta, sem a mediação dos sentidos. Fora isso, tudo é representação ou indicação indireta mediada pelos sentidos e intelecto.

Alguns videntes da verdade (santos, místicos) descreveram sua visão em palavras, que depois se tornaram dogmas. Outros colocaram seu insight na forma de poesias ou contos, que depois foram taxados como mitologia. Alguns, como o Buda, tentaram evitar a criação de dogmas e mitos e por isso escolheram ensinar apenas o processo para que possamos ter nossa experiência em primeira mão, se calando quanto ao conteúdo de suas visões. Ainda assim, dogmas e mitos abundam no budismo [enquanto isso, pessoas frustradas pela proliferação de dogmas, mitos e ritos desconectados de seu sentido original, resolveram tomar refúgio exclusivo na razão humana e criaram seu próprio “sistema de dogmas” na forma de uma dita ciência que estuda apenas objetos e negligencia a consciência por trás de todo fenômeno].

Aqui encontra-se o grande diferencial do Bhāgavata Purāṇa – um dos mais importantes textos da índia antiga – em relação a tantos outros textos de revelação espiritual. Percebendo as limitações das várias abordagens descritas acima, o redator habilmente combina todas elas para oferecer um vislumbre inicial o mais completo possível da realidade última, ainda que indireto. Essa apresentação literária e poética é também embasada em raciocínio lógico sofisticado e suplementada por um processo de autorealização (bhakti-yoga) que permite a qualquer pessoa eventualmente ter acesso direto à realidade suprema pela sua experiência pessoal.

Essa abordagem foi recomendada pelo sábio Nārada a Vyāsadeva, o compilador dos Vedas, no Bhāgavata Purāṇa [Canto 1, cap. 5]. Por isso, e também pela qualidade do insight místico de Vyāsa [descrito no BhP 1.7.4], essa obra é considerada o fruto maduro de toda a literatura védica.

Mantras

Meditação em Deus menino (Damodarastakam)

1 de junho de 2018

Oito versos dedicados a Krishna em sua forma de menino travesso (Damodara)

Certa vez, o pequeno Krishna entrou na dispensa de sua mãe e “roubou” vários potes cheios de iogurte que ele comeu com seus amiguinhos e ainda distribuiu o restante aos macacos…

Quando sua mãe chegou ao local e os pegou em flagrante, ele tentou fugir mas acabou sendo apanhado por sua mãe, que correu mais rápido. Tendo sido amarrado pela cintura a um pilão de madeira depois dessa traquinagem, Krishna ficou conhecido como Damodara (damo=corda; udara=barriga).

Assim, o Senhor Supremo que grandes místicos tentam alcançar através de suas meditações foi capturado por sua mãe Yashoda, que conseguiu atá-lo não pela força das cordas, mas pelo poder de seu amor puro e incondicional.