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O Absoluto e suas representações

26 de outubro de 2017

“Ó Vyāsadeva, tua visão é perfeita, tua reputação é imaculada, estás situado em veracidade e firme em tuas observâncias espirituais. Assim podes, em transe, pensar nas atividades transcendentais do Senhor para a libertação das pessoas em geral.” (Bhāgavata Purāa 1.5.13)

Existe alguma verdade absoluta ou realidade última subjacente à criação cósmica? Se existe, pode ela ser compreendida? E supondo que alguém tenha tido acesso a essa realidade, ainda que tenha sido apenas um vislumbre, de que maneiras poderia essa pessoa comunicar sua experiência às demais? Vamos primeiramente discutir maneiras de transmitir experiências ordinárias e depois ver como isso se aplica a experiências transcendentes.

 

Imagine que haja, no quintal da sua casa, um pé de jambo. É uma fruta relativamente conhecida no Brasil, mas em outras partes do mundo a maioria das pessoas não faz ideia do que seja. Daí imagine que você está viajando em outro país e alguém te pergunta se você conhece jambo, se já viu uma fruta dessas, se já pegou uma e já comeu. Como você poderia comunicar sua experiência para essa pessoa?

  1. Você poderia digitar “jambo” no Google Images e mostrar uma foto dessa fruta para a pessoa.
  2. Você poderia buscar uma definição mais detalhada na Wikipédia, incluindo nome científico da espécie, vitaminas que a fruta contém, etc.
  3. Se você é um poeta, poderia escrever alguns versos descrevendo mais profundamente essa fruta e sua experiência com ela.
  4. Se você é um escritor, poderia se inspirar a escrever um romance sobre jambos e tudo o que se passa em torno dos jambeiros…
  5. Ou você poderia decidir não relatar a sua experiência, mas incentivar a pessoa a viajar até o jambeiro e provar a fruta diretamente. Você pode até desenhar um mapa de como chegar até a sua casa no Brasil, ou pode dar as coordenadas para a pessoa buscar no Google maps.

Pois então, transpondo essa analogia para as experiências transcendentes dos místicos e santos das várias tradições, fica fácil perceber que cada um deles tentou comunicar sua visão utilizando uma ou mais das estratégias delineadas acima. Em todo caso, será sempre uma representação da realidade ou uma diretriz sobre como perceber essa realidade. Aliás, podemos nos perguntar: será que existe algo neste mundo de objetos e experiências ordinárias que não seja representação?

Na verdade, tanto filósofos ocidentais quanto pensadores da índia antiga chegaram à conclusão de que nada em nossa percepção é a realidade em si, mas uma representação dela em nossa mente. Toda a experiência que temos neste mundo acontece através dos sentidos – tudo o que vemos, ouvimos, sentimos, degustamos, etc., é sempre uma experiência mediada pelos sentidos, mente e intelecto que funcionam como nossos instrumentos para captar e interpretar a realidade externa.

Além do mais, todos os objetos desses sentidos são manifestações efêmeras, que não possuem existência real do ponto de vista do absoluto [cf BhG 2.16]. Em suma, juntando a imperfeição dos sentidos com a natureza efêmera de seus objetos, nossas experiências ficam muito longe de poderem ser consideradas reais. Ainda assim, elas são úteis para fins práticos, assim como ícones na tela de um computador que nos permitem acessar conteúdos valiosos clicando neles.

A realidade propriamente dita, entretanto, estaria em outra dimensão: seria o mundo das ideias de Platão, os arquétipos de Jung, o Brahman do pensamento Vedānta, o mundo espiritual das diversas tradições teístas. Se é possível ter acesso direto a essa Realidade, esse acesso tem de ser necessariamente uma percepção espiritual direta, sem a mediação dos sentidos. Fora isso, tudo é representação ou indicação indireta mediada pelos sentidos e intelecto.

Alguns videntes da verdade (santos, místicos) descreveram sua visão em palavras, que depois se tornaram dogmas. Outros colocaram seu insight na forma de poesias ou contos, que depois foram taxados como mitologia. Alguns, como o Buda, tentaram evitar a criação de dogmas e mitos e por isso escolheram ensinar apenas o processo para que possamos ter nossa experiência em primeira mão, se calando quanto ao conteúdo de suas visões. Ainda assim, dogmas e mitos abundam no budismo [enquanto isso, pessoas frustradas pela proliferação de dogmas, mitos e ritos desconectados de seu sentido original, resolveram tomar refúgio exclusivo na razão humana e criaram seu próprio “sistema de dogmas” na forma de uma dita ciência que estuda apenas objetos e negligencia a consciência por trás de todo fenômeno].

Aqui encontra-se o grande diferencial do Bhāgavata Purāṇa – um dos mais importantes textos da índia antiga – em relação a tantos outros textos de revelação espiritual. Percebendo as limitações das várias abordagens descritas acima, o redator habilmente combina todas elas para oferecer um vislumbre inicial o mais completo possível da realidade última, ainda que indireto. Essa apresentação literária e poética é também embasada em raciocínio lógico sofisticado e suplementada por um processo de autorealização (bhakti-yoga) que permite a qualquer pessoa eventualmente ter acesso direto à realidade suprema pela sua experiência pessoal.

Essa abordagem foi recomendada pelo sábio Nārada a Vyāsadeva, o compilador dos Vedas, no Bhāgavata Purāṇa [Canto 1, cap. 5]. Por isso, e também pela qualidade do insight místico de Vyāsa [descrito no BhP 1.7.4], essa obra é considerada o fruto maduro de toda a literatura védica.

Pérolas de sabedoria

Como viver o Dharma

21 de setembro de 2017

Como a ave que encontra uma corrente de ar ascendente paira cada vez mais alto no céu sem precisar bater suas asas, quem alinha sua vida com o Dharma consegue alcançar seus propósitos com naturalidade, sem fazer muito esforço. Como isso é possível?

Viver o Dharma é essencialmente saber expressar aquilo que somos, é a arte de responder apropriadamente a cada situação que a vida nos apresenta. Esse Dharma se reflete nas várias dimensões da nossa existência: corpórea, emocional, vocacional, relacional e espiritual. É dito que na verdade não somos seres humanos buscando uma experiência espiritual, mas seres espirituais passando por uma experiência humana. Portanto, as atividades de cada uma dessas esferas da vida deveriam todas ser orientadas pelos valores da dimensão espiritual. Em outras palavras, quando a execução dos nossos deveres em cada dimensão da vida contribui para a elevação da nossa consciência, isso indica que estamos alinhados com o nosso Dharma.

A busca desse equilíbrio na vida nos ajuda a superar crises existenciais, quadros de depressão, problemas com ansiedade, insônia, etc. Mais do que isso, estar bem situado no Dharma gera grande entusiasmo pela vida e nos ajuda a desenvolver plenamente o nosso potencial latente. Tendo encontrado seu caminho e seu lugar no mundo, a pessoa contribui de forma significativa para a sociedade e em retorno recebe todo o apoio de que precisa. É como uma ave que encontra correntes de ar quente e assim consegue pairar cada vez mais alto, quase sem fazer esforço. Aliás, a palavra dharma vem da raiz sânscrita dhṛ que traz a ideia de sustentar, manter, firmar, preservar. Viver assim, alinhado com um plano maior, gera um profundo sentimento de satisfação e bem-estar.

Como podemos então descobrir nosso dharma? Primeiramente, devemos estar cientes da natureza sutil e dinâmica do Dharma. Não é possível defini-lo com palavras nem mesmo codificá-lo através de um conjunto de regras. Assim como podemos ouvir e dançar ao som de uma bela música, podemos viver em harmonia com o Dharma. Para alcançar a compreensão que permite essa sintonia, sugiro duas abordagens principais:

  1. O estudo de textos consagrados que discutem o Dharma e temas correlatos.
  2. A meditação, que proporciona uma percepção suprarracional de quem somos.

O estudo nos poupa muito tempo pois nos permite acessar as reflexões filosóficas e os insights espirituais de grandes mestres que se debruçaram sobre o assunto ao longo de milênios. A meditação nos coloca em um estado de consciência mais propício para que possamos assimilar esse conhecimento, além de fazer brotar essa compreensão sobre o Dharma diretamente de dentro do nosso coração. O primeiro processo é racional, o segundo é místico. Ambos se complementam para promover o autoconhecimento, o que por sua vez pode agregar imenso valor e propósito à nossa existência.

 

Pérolas de sabedoria

Colocando cada coisa no seu devido lugar

18 de setembro de 2017

O universo é perfeito e tudo tem alguma razão de ser dentro da criação. Portanto, espiritualizar a vida não é negar o mundo, mas saber alinhar tudo – posses, habilidades, relacionamentos, etc. – dentro de um propósito superior.

Por exemplo, se eu entendo que tudo emana de Deus, que mesmo esse computador no qual estou escrevendo é feito de energia divina e graças à inteligência dada por Deus ao ser humano, então posso utilizar esse recurso tecnológico que tenho em minhas mãos para um propósito benéfico.

Se tenho propensão a estudar e a ensinar, posso direcionar isso para aprender e transmitir coisas boas que possam gerar verdadeira felicidade para mim e para os demais.

E se percebo cada ser vivo ao meu redor como uma centelha espiritual, como um ser divino que tem um propósito neste mundo tanto quanto eu tenho, então posso lidar com cada pessoa, animal ou planta respeitando sua individualidade, sua condição de sujeito.

A exploração ocorre quando despersonalizamos os outros seres. O único antídoto para isso é reconhecermos o valor de cada ser como agente espiritual, como filho de Deus que merece viver e ser feliz como todos os demais.

Sobre isso, a Sri Isopanisad 6 diz:

yas tu sarvāṇi bhūtāny ātmany evānupaśyati
sarva-bhūteṣu cātmānaṁ tato na vijugupsate

Aquele que sempre vê todos os seres na Alma Suprema, bem como a Alma Suprema em todos os seres, jamais odeia qualquer criatura. [Iso 6]

Pérolas de sabedoria

Estar no mundo sem ser do mundo

18 de setembro de 2017

Assim como a flor de lótus – que nasce do lodo e dali se eleva impoluta – quem tem consciência de seu Dharma atua no mundo sem se enredar nele.

De fato, a Bhagavad-Gita 5.10 explica que a ação em si não gera reação cármica; o problema está no apego egoísta aos resultados. Portanto, agir sem apego é o segredo do karma-yoga:

brahmaṇy ādhāya karmāṇi saṅgaṁ tyaktvā karoti yaḥ
lipyate na sa pāpena padma-patram ivāmbhasā

“Aquele que executa seu dever sem apego, entregando os resultados ao Senhor Supremo, não é afetado pela ação pecaminosa, assim como a folha de lótus não é tocada pela água.” [BhG 5.10]

Mantras

Meditação no Absoluto (Mantras de abertura da Isopanisad e do Bhagavata Purana)

17 de setembro de 2017

Mantra de abertura da Īśopaniṣad:
oṁ
pūrṇam adaḥ pūrṇam idaṁ
pūrṇāt pūrṇam udacyate
pūrṇasya pūrṇam ādāya
pūrṇam evāvaśiṣyate

Tradução: O Absoluto é perfeito e completo. Desse completo original surgem outras unidades também completas em si mesmas; e mesmo retirando-se tantas unidades completas do todo-completo, o Absoluto ainda assim permanece perfeito e completo.

Mantra de abertura do Bhagavata Purana:

janmādy asya yato ’nvayād itarataś cārtheṣv abhijñaḥ svarāṭ
tene brahma hṛdā ya ādi-kavaye muhyanti yat sūrayaḥ
tejo-vāri-mṛdāṁ yathā vinimayo yatra tri-sargo ’mṛṣā
dhāmnā svena sadā nirasta-kuhakaṁ satyaṁ paraṁ dhīmahi

Meditemos [naquele que é] a Verdade última. Que é a causa tanto material quanto eficiente da criação, [manutenção e aniquilação] deste [universo], permeando-o e existindo à parte dele simultaneamente. Que conhece tudo completamente. Que brilha por seu próprio esplendor e é independente. Por quem os Vedas foram revelados no coração do sábio original [i.e. Brahmā, o demiurgo do universo]. Que confunde [até mesmo] os sábios. Fundamentada em cuja realidade a criação tríplice resultante das transmutações de fogo, água e terra não é falsa. Por cuja influência toda a falsidade é dissipada. (BhP 1.1.1)

Pérolas de sabedoria

Cultivando o jardim interior

16 de setembro de 2017

Podemos comparar nosso coração a um jardim onde todo tipo de planta pode crescer. Cultivar o Dharma seria, portanto, como cuidar desse jardim: precisamos afofar a terra, adubar, plantar boas sementes, regá-las diariamente e arrancar as ervas daninhas. Assim, nosso jardim interior floresce e a fragrância de suas flores permeia nosso coração revelando sutilmente a beleza e harmonia que envolvem o nosso ser.

Na literatura védica, o mestre espiritual também é muitas vezes comparado a um jardineiro pois sua função é preparar o coração do discípulo (afofar a terra) e semear a bhakti-lata-bija, ou a semente do amor a Deus. Além disso, o discípulo é instruído a seguir um processo de sadhana, ou cultivo espiritual, que corresponde a regar essa plantinha diariamente. Finalmente, certas atividades e atitudes prejudiciais à vida espiritual devem ser evitadas, o que pode ser comparado a arrancar as ervas daninhas que ameaçam sufocar a plantinha da devoção.

Essa analogia aparece em um texto medieval da Índia chamado Caitanya-caritamrta:

brahmāṇḍa bhramite kona bhāgyavān jīva
guru-kṛṣṇa-prasāde pāya bhakti-latā-bīja

“Após vagar durante muitas vidas por diferentes partes do universo, uma pessoa afortunada recebe a semente do amor a Deus pela graça do mestre espiritual e do próprio Senhor Supremo (Krishna).” [Cc Madhya 19.151]